Bem-Estar Saúde

Saúde e desigualdade social

Colaboração do Dr. Jorge Barros Afiune – Pneumologista

 

Falar de Saúde não é apenas falar de doença.

Saúde começa muito antes. Num país como o nosso, discutir saúde começa discutindo desigualdade social.

Começa conhecendo o fato de que, no Brasil, 50% da população mais pobre detém 10% da renda nacional, enquanto que, exatamente o oposto, 10% das pessoas mais ricas, têm 50% da renda. É isso. Concentração de renda.

Isto não é apenas um dado estatístico. Significa que quem tem mais renda tem mais educação e, portanto, mais e melhores empregos, mais saneamento básico, mais acesso à informação, maior possibilidade de eleger seus representantes no Congresso e no Executivo, mais transporte, mais comida, mais cultura e, por causa de tudo isso, mais acesso à saúde.

Muito poderia ser dito sobre qualquer um dos temas acima, mas vou falar um pouco sobre saneamento básico, que tem implicação direta na incidência de várias doenças.

O saneamento básico é função direta da riqueza das populações. Assim, não é difícil concluir que os estados do Norte do Brasil tem os piores índices deste indicador, enquanto que sul e sudeste os tem bem melhores.

O saneamento básico, ou a falta dele, é responsável direto pela incidência de doenças diarreicas causadas por vírus, bactérias ou protozoários. No Brasil, diarreias, febres entéricas e hepatite A, doenças de transmissão feco-oral, foram responsáveis por 87% das internações por saneamento básico inadequado entre 2000 e 2013, segundo o IBGE (2015). Sem esquecer dengue e leptospirose, como mostra recente levantamento, feito pelo

Instituto Trata Brasil, da incidência destas doenças em cidades com maior ou menor esgotamento sanitário (link no final da matéria).

Trazendo o problema para mais perto de nós, o site observasampa, que infelizmente tem dados apenas até 2010, mostra que a prefeitura regional de Jaçanã Tremembé tinha (em 2010), ainda, 13,7% de seus domicílios não ligados a redes de esgoto, pior apenas que as prefeituras do extremo sul da cidade.

Ainda, a taxa de mortalidade infantil de Tremembé (em 2014, segundo a fundação Seade) é de 13,2 por cada 100.000 habitantes, taxa esta que inclui as mortes por doenças afetadas pela deficiência de saneamento básico, enquanto que Barra Funda e Vila Leopoldina tem apenas 2,9 por 100 000 habitantes.

Sou testemunha das décadas de luta do Lions Tremembé pelo saneamento básico da nossa região. Com denúncias, visitas a subprefeitos e prefeitos, campanhas etc.

Mas, isso é insuficiente. O atual prefeito tem como um dos temas de sua gestão, o “Cidade Linda”. Enquanto o tema fundamental deveria ser “Cidade Saudável”. De nada adianta os jardins verticais da 23 de maio, enquanto nossas crianças morrem ainda a uma taxa inaceitável. Isto mostra que a discussão em torno dos temas importantes da cidade é, antes de tudo, política. E não pode ser feita sem a participação da população, sobretudo a das regiões mais periféricas.

Que, por ter renda muito menor, têm menos educação, menos acesso à informação, menor possibilidade de eleger seus representantes, menos comida, menos transporte e, assim…voltamos à desigualdade social.

Claro, o tema é complexo e polêmico, não cabendo nesta pequena coluna. Mas, depois de 8 anos escrevendo sobre saúde no heróico “Leão da Cantareira”, me sinto no dever de expressar meu sentimento em relação às causas fundamentais do sofrimento do nosso povo. Que, diga-se, não têm solução fácil…

 

Abaixo, os links para as informações utilizadas neste texto.

Ah! E com o lembrete do Outubro Rosa para as moças e do Novembro Azul para os nossos moços, mais ou menos jovens, para que envelheçam com saúde!

 

http://observasampa.prefeitura.sp.gov.br/index.php/indicadores/indicadores-por-tema/

http://infocidade.prefeitura.sp.gov.br/htmls/10_taxas_de_

mortalidade_infantil_e_neonatal_2000_10852.html

http://www.tratabrasil.org.br/datafi les/estudos/doencas/press-release.pdf

SAÚDE E DESIGUALDADE

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